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03. Overdose por Xilazina (“Tranq Dope”): O Que os Clínicos Precisam Saber

Published on January 1, 2026 Certification expiration date: January 1, 2029

David A. Gorelick, M.D., Ph.D., D.L.F.A.P.A., F.A.S.A.M.

Professor of Psychiatry - University of Maryland School of Medicine

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Manejo da Toxicidade por Xilazina

Emergência da Xilazina e Relevância Clínica

A xilazina é um medicamento de uso veterinário com presença rapidamente crescente no mercado ilícito de drogas. A xilazina foi detectada pela primeira vez em amostras de drogas ilícitas em Porto Rico, no ano 2000, e desde então se disseminou por todo os Estados Unidos. É comumente conhecida nas ruas como “tranq dope” por ser aprovada como tranquilizante veterinário.

A disseminação do uso da xilazina é favorecida pelo seu status legal. A xilazina é legal em âmbito federal e sequer é classificada como substância controlada. A prevalência real do uso da xilazina permanece desconhecida, pois ela não é investigada na maioria dos inquéritos sobre uso de drogas.

Sabe-se que a overdose por xilazina causou vários milhares de mortes nos Estados Unidos ao longo dos últimos anos. O número exato de óbitos é desconhecido, pois a xilazina não é detectada pelos painéis toxicológicos padrão e tampouco é pesquisada rotineiramente. Cerca de 95% desses óbitos por overdose envolvem a xilazina combinada a outra droga, mais comumente o fentanil. 

Farmacologia e Implicações para o Manejo da Overdose

A naloxona é um tratamento eficaz para overdose por fentanil e outros opioides. Contudo, a naloxona não é efetiva na overdose por xilazina pela simples razão de que a xilazina não é um opioide. Ao contrário, a xilazina ativa os receptores adrenérgicos alfa-2 nos neurônios.

Assim, o uso da xilazina acarreta danos substanciais para os quais atualmente não dispomos de tratamento eficaz. Além disso, pouco se sabe sobre a farmacologia clínica da xilazina, uma vez que ela nunca foi aprovada para uso humano pela Food and Drug Administration (FDA). As escassas informações disponíveis baseiam-se nos poucos estudos em animais conduzidos para sua aprovação para uso veterinário.

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Revisão Sistemática Aponta Baixa Qualidade das Evidências

Uma revisão recente conduzida pelo Dr. Owusu-Antwi e colaboradores busca reduzir essa lacuna de informações, reunindo em um único artigo todo o conhecimento atualmente disponível sobre o diagnóstico e o tratamento de pacientes com intoxicação por xilazina, incluindo overdose e síndrome de abstinência. Os autores empregaram métodos consagrados, seguindo as amplamente respeitadas diretrizes PRISMA para revisões sistemáticas. Foi realizada uma busca eletrônica na literatura médica publicada de 1957 a 2024, tornando o artigo relativamente atualizado.

A pesquisa identificou 34 artigos relevantes. A qualidade das evidências identificadas foi muito baixa. Todos os artigos consistiam em relatos de caso ou séries de casos.

Não foram encontrados ensaios clínicos de qualquer natureza. Quase metade dos casos não dispunha de testes toxicológicos para confirmar a presença de xilazina. Muitos casos não apresentavam seguimento após a resolução do episódio agudo no pronto-socorro.

Apresentação Clínica da Intoxicação por Xilazina

Com base nessa revisão, o paciente típico com intoxicação por xilazina apresenta um conjunto característico de achados clínicos. É importante que esses achados sejam reconhecidos à beira do leito.

As características clínicas típicas incluem:

  • Sonolência
  • Comprometimento do nível de consciência
  • Instabilidade autonômica
  • Taquicardia sinusal

Cuidado de Suporte: Único Consenso Estabelecido

O único consenso sobre o tratamento de pacientes com intoxicação por xilazina é a adoção de cuidados de suporte e sintomáticos. Isso inclui monitorização rigorosa dos sinais vitais e do estado mental, oxigenoterapia suplementar e reposição volêmica intravenosa conforme necessário.

Atualmente, não existe antídoto específico para a intoxicação por xilazina. Não surpreende, portanto, que uma ampla variedade de medicamentos tenha sido utilizada nos casos relatados, a saber:

  • Atropina
  • Benzodiazepínicos
  • Clonidina
  • Dexmedetomidina
  • Gabapentina
  • Naloxona
  • Tizanidina

Como cada medicamento foi administrado a apenas alguns poucos pacientes, é difícil determinar quais poderiam ser amplamente eficazes.

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Naloxona no Tratamento da Co-intoxicação por Opioides

Apenas o uso da naloxona possui uma justificativa farmacológica clara. A maioria das overdoses por xilazina ocorre em combinação com opioides, como fentanil ou heroína. A naloxona, como bloqueadora dos receptores opioides, seria eficaz em minimizar a contribuição dos opioides para o quadro de overdose.

Uma ampla variedade de medicamentos foi igualmente utilizada no tratamento da suspeita de síndrome de abstinência à xilazina. Esses incluíram benzodiazepínicos, clonidina, gabapentina, fenobarbital, antipsicóticos de segunda geração, pregabalina e ropinirol.

Abordagem Diagnóstica Prática na Prática Clínica

Diante da escassez e fragilidade das evidências disponíveis, os autores compreensivelmente não formularam recomendações diagnósticas ou terapêuticas específicas além do que o bom senso clínico já orienta. O diagnóstico de intoxicação por xilazina é estabelecido por meio da anamnese obtida do próprio paciente, quando possível, de informantes colaterais e de testes toxicológicos, incluindo pesquisa específica para xilazina quando disponível. O tratamento é de suporte e sintomático, com monitorização rigorosa dos sinais vitais e do estado mental.

Lacunas do Conhecimento e Perspectivas Futuras

Creditiando-se aos autores, o artigo também destaca as principais lacunas no conhecimento existente e aponta algumas direções para pesquisas futuras. Por exemplo, na Medicina Veterinária, o atipamezol reverte eficazmente os efeitos da xilazina. O atipamezol é um bloqueador dos receptores adrenérgicos alfa-2 aprovado pelo FDA para uso em animais, porém não aprovado para uso humano.

A conclusão é que atualmente dispomos de escasso conhecimento de qualidade sobre como tratar a intoxicação, a overdose ou a síndrome de abstinência por xilazina. Não existem diretrizes de prática clínica disponíveis. Este artigo delineia de forma útil o pouco que se conhece, mas os clínicos permanecem amplamente por conta própria até que a pesquisa alcance a nossa realidade clínica.

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